quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Isto é o que os amigos fazem 
 
 

Jack jogou os papéis sobre minha mesa - suas sobrancelhas traçavam uma linha reta.
- O que há de errado? Perguntei.

Enfiando um dedo na proposta, ele disse,
- Na próxima vez que você quiser mudar alguma coisa, pergunte-me primeiro.

E virou as costas se afastando de mim, me deixando ardendo de raiva.
- Como ousa tratar-me deste jeito, eu pensei.

Eu tinha alterado uma frase e corrigido a gramática, algo que eu pensava que era paga para fazer.

E eu já tinha sido avisada. Outras mulheres que tinham trabalhado no meu lugar antes de mim deram nomes a Jack que eu não posso repetir. Um colega me falou no meu primeiro dia,
- Ele é pessoalmente responsável por duas secretárias terem saído da firma.

Enquanto as semanas passavam, crescia o desprezo de Jack. Suas ações faziam com que eu me questionasse sobre acreditar em "dar a outra face" e "amar seu inimigo". Jack sempre disparava uma insulta à qualquer face que se virasse em sua direção. Orei pela situação, mas para ser honesta, quis colocar Jack em seu lugar, eu não o amava.

Um dia, depois que outro destes episódios me deixou em lágrimas, entrei de assalto em seu escritório, preparada para perder meu emprego se necessário, mas não antes de eu fazer o homem saber como me sentia. Abri a porta e Jack deu uma olhada por cima.
- O que foi? Ele perguntou bruscamente.

Eu sabia o que eu tinha que fazer. Afinal de contas, ele o mereceu.

Sentei-me do outro lado dele e disse tranqüilamente,
- Jack, o jeito que você tem me tratado está errado. Ninguém jamais falou comigo deste jeito. Como profissional, está errado, e eu não posso permitir que continue.

Jack riu nervosamente e jogou as costas contra a cadeira. Fechei meus olhos brevemente, pedindo à Deus que me ajudasse.
- Quero lhe fazer uma promessa. Serei um amigo. Ele disse. Eu lhe tratarei como você merece ser tratada, com respeito e bondade. Merece isso. Todo mundo merece.

Escorreguei para fora da cadeira e fechei a porta atrás de mim.

Jack evitou-me o resto da semana. As propostas, especificações e cartas apareciam em minha mesa enquanto eu estava no almoço e minhas versões corrigidas não foram vistas novamente. Eu trouxe biscoitos ao escritório um dia e deixei um pacote em sua mesa. Outro dia eu deixei um bilhete: "Espero que tenha um grande dia".

Poucos dias depois, Jack reapareceu. Estava reservado, mas não houve outro episódio. Meus colegas de trabalho encurralaram-me na hora do café,
- Acho que você conquistou o Jack, disseram. - Deve ter lhe contado algo de muito bom.

Sacudi minha cabeça.
- Jack e eu tornamo-nos amigos, eu disse. E passei a recusar conversar sobre ele. Cada vez que eu via Jack no corredor, eu sorria para ele. Afinal de contas, é isso o que amigos fazem.

Um ano depois de nossa "conversa", descobri que tinha câncer de mama. Eu tinha trinta e dois anos, era mãe de três crianças jovens e lindas, e estava assustada. As estatísticas não davam boa perspectiva de sobrevivência. Depois de minha cirurgia, amigos e amados me visitaram e tentaram achar as palavras certas. Ninguém sabia o que dizer, e muitos disseram as coisas erradas. Outros choraram, e tentei encorajá-los. Agarrei-me em minha própria esperança.

Um dia, Jack apareceu na entrada do meu pequeno e escuro quarto do hospital. Eu acenei para ele com um sorriso. Ele andou até minha cama e sem nenhuma palavra colocou um embrulho ao meu lado. Dentro do embrulho repousavam vários bulbos.
- Tulipas, ele disse.

Eu dei um sorriso, sem entender.

Ele embaralhou os pés, limpou a garganta e disse,
- Se você os plantar quando voltar para casa, elas nascerão na primavera. E quero que você saiba que eu penso estar lá para vê-los quando brotarem.

Lágrimas cobriram meus olhos.
- Obrigado, cochichei.

Jack segurou a minha mão e respondeu,
- Por nada. Você não pode ver agora, mas na primavera você verá as cores que eu escolhi para você. Acho que você gostará. Virou-se e saiu sem outra palavra.

Há dez anos, eu vejo as tulipas vermelhas com manchas brancas brotando da terra em cada primavera.

Num momento em que eu apenas orava pelas palavras certas, um homem de poucas palavras disse todas as coisas certas.


Afinal de contas, é isso o que amigos fazem.


Tradução de Sergio Barros

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